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Açucena, o guepardo – conceito e processo de pintura

Apresentação - o nascimento do guepardo

Nada melhor que o início da primavera para libertar o guepardo desse processo longo que durou mais que o esperado. Assim é na vida como na arte. O tempo é apenas um ponto de referência que tenta determinar acontecimentos.

Nesse processo, fizemos uma votação nos storys do Instagram para escolher um nome, e o mais votado foi "Açucena", com o qual ele foi carinhosamente batizado. Também nesse processo, gravei um time lapse reduzindo mais de 300 minutos de gravações do processo de pintura para apenas 6 minutos. Embora tenha sido publicado na plataforma YouTube, o Instagram vetou por causa de uma música, e então eu adiei a repostagem na rede social.

Dessa forma, o vídeo precisou ser reformulado, e então aproveitei para substituir a música de fundo por uma pequena estória, um "causo" que fala sobre uma conversa entre um empresário e um guepardo. Acredito que essa publicação marca o fechamento de um ciclo e o início de outro.
Não foi programado para nascer na primavera, mas assim como um parto, toda cria nasce no tempo certo.

É com alegria que finalizo este ciclo, abrindo as portas para o novo. Aproveito para disponibilizar essa aquarela e deixá-la ir morar na casa de alguma alma admiradora. A princípio, não haverá reproduções, então somente a obra original está disponível.

"Açucena, o guepardo" Denise Bruno Aquarela sobre papel Canson 300g (vegano) 29,7cm alt x 21,0cm larg Agosto-2022 - São Paulo Disponível

Arquétipo:
Guepardo é um arquétipo de foco, rapidez, discernimento, contemplação, beleza.

O processo de pintura

Esse processo de pintura em aquarela do guepardo gerou mais de 300 (trezentos) minutos de filmagem, que foi acelerado em 4000% (quatro mil por cento) para permanecer com pouco mais de 6 minutos. Isso sem contar o tempo de esboço e preparação do vídeo.

Ou seja, 300 minutos transformados em pouco mais de 6. Eu realmente amaria poder compartilhar todo o processo de pintura em tempo real, mas creio que ninguém permaneceria tanto tempo na frente da tela. Até mesmo os seis minutos serão vistos por poucos.

Mas o que importa aqui é o registro de um processo que, apesar de acelerado para visualização, foi feito devagar. Foi feito com muitas pausas, sendo a maior delas de mais de 30 dias sem tocar nos pincéis. Um processo real de uma artista que compreendeu a importância de seu próprio ritmo, ao invés de tentar se adaptar a uma urgência absurda imposta por um sistema desumano que quer tudo para agora.

A arte não tem pressa. Ela tem raízes, tem alma, tem vida.

Veja aqui a versão original do vídeo - timelapse

Considerações sobre o material utilizado:

O papel utilizado foi próprio para aquarela, Canson 300g. É um papel de linha não profissional, porém apto para veganos, já que não contém em sua composição insumos de fonte animal. Para a pintura, tinta aquarela Pentel, eu já possuía antes de me tornar vegana, e como não há confirmação de que esteja livre de sofrimento animal, vou substituir quando esta acabar. O pincel de cabo de bambu e cerdas sintéticas.

Veja aqui a versão narrada do vídeo - O empresário e o guepardo - causo

Transcrição do áudio - O empresário e o guepardo - causo

Um poderoso empresário caminhava pela savana africana portando uma arma de cano longo e se aproximou de um jovem guepardo, que sentado tranquilamente contemplava a natureza ao seu redor. Sua respiração era calma, seu olhar era vívido, porém sereno. Seu estado de paz foi interrompido pelo som da voz do homem, que incomodado com a vida preguiçosa do felino, questionou:

- Você com todo esse sossego, não tem medo de ficar com fome mais tarde? Se eu tivesse essas presas e garras afiadas, estaria caçando e armazenando comida, e só então eu pararia para descansar, já tendo garantido o meu sustento para o futuro.

O guepardo, sem esboçar muita preocupação, respondeu:
- Eu estou parado porque não estou com fome. Enquanto permaneço aqui em estado de repouso, contemplação e presença no agora, o ambiente me fornece energia vital, e meu corpo o absorve e acumula.

Quando eu ficar com fome, terei um impulso para buscar comida, e usarei a energia acumulada para agir. Por estar conectado com a minha natureza interior, eu saberei exatamente o que e como fazer, pois meu instinto é programado para isso e eu confio totalmente nele.

Porém, se eu permanecer preocupado com a fome do futuro, em vez de absorver a vitalidade que o ambiente me fornece agora, eu gastarei a pouca energia que me resta travando lutas internas imaginárias. E quando finalmente eu sentir fome, estarei tão sem forças, que não conseguirei fazer o que é preciso para sobreviver.

O homem, em tom de desprezo, disse:
- Você faz isso porque é um animal irracional. Eu, com a minha inteligência, consegui alcançar o topo da cadeia alimentar. Criei um sistema em que, se eu trabalhar muito, extrair recursos da natureza em escala industrial, controlar outros humanos menos favorecidos, dominar as espécies animais que me agradam o paladar, criando-as exclusivamente como objetos para servir aos meus propósitos, então garantirei alimento e riqueza material, e poderei passear nos meus dias de descanso. Você tem sorte de não ser um bovino, suíno ou peixe.

O guepardo então, olhando entediado nos olhos do homem, rosnou resmungando baixinho e respondeu:
- É verdade, você é o mais inteligente e está no topo da cadeia alimentar. Agora por favor me deixe em paz.

O homem riu e saiu caminhando pelo grande vale pensando em tudo o que poderia explorar ali. Uma hora depois, distraído e cansado do passeio, percebeu alguns pássaros à distância voarem, enquanto um grande e ágil vulto se aproximava numa velocidade de 100km/h.

Sem sucesso, tentou correr, e num segundo se deu conta de que era ninguém menos que o guepardo, que saltou sobre seu peito prendendo-o contra o chão antes mesmo que pudesse fugir ou apontar sua arma, que caiu de suas mãos.

E antes que ele proferisse alguma palavra, o felino lhe disse: eu sinto muito pelo incômodo, mas está na hora do meu jantar. Há uma hora atrás, eu não sentia fome.
Eu não preciso correr o tempo todo. Só preciso acumular força para correr muito em pouco tempo. Se eu corresse nessa velocidade o tempo todo, meu corpo não suportaria. Como estava totalmente descansado, energizado e tinha total confiança, eu sabia que só precisava farejar e correr.

Ao dizer isso, exibiu suas enormes presas e avançou sobre sua jugular.

O empresário acordou então num grande salto, com o coração saindo pela boca, quando se deu conta de que era apenas um sonho. Obviamente, sendo tão inteligente, ele jamais iria expor seu frágil corpo dessa forma. Levantou-se e foi à geladeira buscar algo para comer. Amanhecera o dia, e ele precisava continuar encontrando uma justificativa para preencher os vazios de sua vida com a falsa imagem de sucesso, poder e riqueza.

***

Moral da estória

A moral da estória está nas entrelinhas. Temos muito o que aprender com a natureza do guepardo, e eu gostaria de destacar alguns conceitos, de acordo com o meu ponto de vista:

1. O homem não está no topo da cadeia alimentar. Dominar e explorar outros seres humanos, a natureza e outras espécies para acumular bens, não é sinônimo de poder e inteligência, mas sim de autodestruição.

2. Você não precisa agir o tempo todo. Sempre que possível, descanse, permaneça em contemplação, acumule energia e aguarde a inspiração e o impulso para agir. Então sua inteligência, seus instintos e sua intuição vão te mostrar como fazê-lo.

3. E o principal: se você não sabe correr numa velocidade maior que 100km/h, não perturbe o descanso do guepardo!
Açucena é doce e pacífica, mas é um predador fantástico.

Esse é apenas um "causo", como diria meu avô. Guepardos não costumam se alimentar de seres humanos, embora possam caçar em duplas ou grupos às vezes, mas costumam caçar animais pequenos de até 40kg.

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Bem, essa é apenas uma estória aparentemente inocente, mas serve para alertar sobre a atual postura humana diante da natureza, e o quanto sua relação com o planeta é predatória e autodestrutiva, e também sobre a desconexão com a própria natureza, impondo para si e para os demais seres humanos, escalas de trabalho exaustivas, alimentação precária, e principalmente, ausência da consciência em relação ao próprio sentido da vida, que não pode ser apenas baseada no material.

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